segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Conan Disse "Faça-se a Luz", e a Luz Se Fez


É impressionante como certos detalhes podem ser importantes na vida de uma pessoa. Aliás, o que pode ser mais importante em uma vida humana do que os detalhes? Não é aqui que se baseia momentos decisivos da psicanálise? Pois bem, sem diletantismos, voltemos aos detalhes.
Enquanto envelheço, fico remontando partes desse quebra-cabeça que sou eu e me pego no flagrante ao perceber que coisas simples, até mesmo ridículas, acabam por ser fundamentais para a minha maneira de agir nos dias de hoje. Estou sendo confuso e prolixo, mas me explico, e para me explicar, obrigo-me a ir direto ao ponto: Conan.
Pois é, admitir que o universo Conan é uma das fatias mais significativas no bolo da minha vida foi difícil, mas não há muito o que fazer. Eu era um pedacinho de gente quando o filme estrelado pelo atual governador da Califórnia (vou me esforçar ao máximo para não ter que escrever o nome do Arnoldinho) passou na televisão. Não importa o que eu pense de tal filme hoje, aquilo mudou para sempre a minha vida.
Destrinchando o minha vida em outras pequenas fatias, desde antes do Conan que eu adoro desenhar. Claro que ainda não encontrei uma criança passiva diante de papel em branco e um punhado de lápis de cor, mas o que eu quero dizer é que ainda um toquinho de gente eu desenhava acima da média da criançada normal da minha idade. Estamos falando quatro anos de idade, talvez. Pois bem, adorava desenhar e tinha companhia, meu irmão mais velho, outro acima da média no traçado.
É muita enrolação para se chegar a um ponto, mas assim é a vida: complexa. O que importa é que após ver o filme do Conan, a nossa rotina mudou por um longo tempo. Ficávamos desenhando cada momento que lembrávamos do filme e, após gastar todo papel e lápis, íamos ao imenso quintal da casa do meu avô, onde reproduzíamos com nossos corpos e a nossa imaginação as lutas e trechos daquela obra cinematográfica que, hoje sei, é de qualidade discutível, mas que eu ainda insisto em discutir.
Soma-se a esse filme uma outra fatia do bolo, as “lendas arthurianas”. É que a minha mãe –guerreira que em nossa infância primordial levou os filhos sem a presença do pai das crianças (embora com ajuda infalível de meus avós e um punhado de tios que estavam por perto) –tinha um belo hábito de em certos momentos ler para nós, antes de dormirmos, contos de fadas, e tínhamos um apreço –meu irmão e eu –pelos contos que remetiam às estórias do Rei Arthur. Vou ser sincero, imagino que Arthur veio antes de Conan, mas não posso garantir, era muito pequeno. Posso sim afirmar que Conan marcou muito mais, porém ambos são responsáveis por um universo de Espada e Magia que não sai da minha existência.
Outras fatias que fazem parte do universo fantástico que marcaram são as estórias de vampiros e monstros em geral (os quais eu amava), os filmes de terror que eu não conseguia deixar de ver apesar de sentir medo, desenhos animados de todos os tipos. Mas peraí? Tudo o que eu coloco como sendo marcante na minha infância é diferente para mim do que foi para outros garotos da minha geração? Em certo ponto sim pela profundidade que atingiu, mas sem dúvida são elementos que estão presentes incluso nas infâncias de minha época até as infâncias de hoje.
Claro que todo garoto brincou com espadas e impressionou-se com o universo da magia. Certamente que os desenhos animados de minha época, como He-Man, Thundercats ou Caverna do Dragão traziam os elementos de espada e magia que marcaram uma época, embora os mesmos elementos apareçam de outras formas nas telinhas de hoje. Mas o fato é que Conan, meu amigo, veio acompanhado de um elemento que fez com que a influência tomasse conta do cotidiano, perdurando por muito mais tempo, Conan tinha uma história em quadrinhos de tiragem mensal chamada A Espada Selvagem de Conan.
Quando minha mãe podia, domingo era o dia oficial de irmos à banca de revistas. A principal era a tradicional Banca do Joel, na praça principal da cidade. Caminhávamos pelo centro da cidade, minha mãe com os dois filhos segurados pelas mãos. Era um momento de extrema alegria. Chegando na banca, era a hora de escolher. Eu sempre saía triste por um lado, pois por ser mais velho (ou seja, por saber se expressar melhor, por ser mais agitado por... sei lá porque) o meu irmão era sempre o que ficava com a revista Conan (não vou dizer A Espada Selvagem toda vez). No início lembro que eu chorava. Queria a mesma revista que ele, nem que fosse para comprar duas iguais. Eu também era louco pelo bárbaro da Ciméria. Mas minha mãe, sábia como todo adulto é, me convencia que tudo era dos dois, que aquilo era só uma formalidade e que era melhor eu escolher outra revista. Triste, eu escolhia outra revista e até era legal, por um lado, pois assim eu variei bastante entre revistas de monstros e Aventura e Ficção, mas eu bem sabia o que realmente queria.
Lembro bem (realmente) de estar sempre justificando para as pessoas que eu realmente gostava daquelas revistas, contando a outros as estórias que eu lia e narrando as aventuras, mas era tudo enganação, bom mesmo era Conan. Nas horas em que meu irmão e eu brigávamos, não tinha essa de ser tudo dos dois, mas com o passar do tempo, fui me acomodando ao fato de sempre ser ele a escolher o bárbaro na banca de revistas. Seja como for, isso foi só a infância, muito ainda está por vir.
Cresci mais um pouco. As revistas do Conan foram se perdendo com o tempo. Novos interesses foram surgindo como a tribo de amigos, as primeiras namoradas, o time de futebol e diversos elementos que fizeram com que, da mudança de Teresina para Curitiba, já não tivesse sobrado sequer um quadrinho do Conan em nossa casa. Naquele momento, nada disso era motivo de tristeza. Os quadrinhos continuaram em minha vida, mas os heróis eram outros, principalmente aqueles do universo Marvel que levavam um X mas não eram Streight Edge. Tinha um bando de amigos que liam a mesma coisa e na adolescência, como se sabe, fazemos ações conjuntas em rituais tribais. Mas eis que um certo hábito se iniciou pelo bairro, um tal de RPG.
Eu não gostava da existência do jogo entre os colegas da rua. Geralmente quando o pessoal estava jogando, não tinha ninguém para jogar bola ou mesmo para conversar. Tínhamos o hábito de, no início da noite, descermos de nossos prédios e ficarmos nas escadas dos prédios ou da rua conversando até os pais começarem a gritar nossos nomes ou percebemos que é tarde demais para ficarmos na rua. O RPG mudou um pouco esse ritual. A história desse jogo está toda relatada por mim em outros alfarrábios, basta dizer, por agora, que ele me chateou no princípio. Reclamava com os amigos, pedia que parassem com aquilo e que voltassem à rua ou o futebol, mas não teve jeito. “Vem ver um jogo, Felipe, só para olhar mesmo”. Se não pode vencê-los... fui. Ainda não foi o suficiente.
Estavam lá, doze, por vezes mais de quinze colegas ao redor da mesa, cada um com uma ficha, dados e livros coloridos. Meu irmão mais velho, com quem na época eu não falava, tinha um personagem que era um bárbaro, chamado Conan. Observei o jogo e achei chato. Alguém tinha faltado e me entregaram a ficha do sujeito. Não sabia o que fazer, mas na hora que os primeiros monstros apareceram, pediram que eu jogasse alguns dados, todos bem diferentes do normal. Joguei e fui embora.
O assunto RPG continuava. Meus amigos de escola todos jogavam, assim como os do bairro. Era questão de tempo que eu entrasse no ritual tribal, e entrei. Primeiro, escrevi uma aventura. Criei algumas coisas e fui em busca de imagens para ilustrar o que havia escrito. Naturalmente cheguei ao que restava de minhas revistas do Conan, ou o que tinha sobrado delas. As imagens de John Buscema alimentaram ainda mais a minha criatividade até que eu desse a história por acabada. Procurei um amigo que narrava RPG, passei a idéia, ele gostou e, juntos, “mestramos”, no que assim eu entrei para o ritual sagrado do grupo de adolescentes. Todos nós e o Conan.
Não saí mais do RPG e o universo de Espada e Magia tomou conta de mim novamente. Meu primeiro personagem: um mago chamado Mitra. Pensei em Crom, mas seria óbvio demais. Já tinha quase 15 anos e não consegui jamais abandonar esse hábito. A referência das minhas narrações nas histórias em quadrinhos eram fortíssimas a ponto de meu amigo Gustavo chamá-las de “Marvels Adventures”. Havia sentido naquilo, embora desde que fora verbalizado pelo meu colega, passei a abandonar (na medida do possível) as HQs como influência e procurar nas fontes literárias, o que me levou, obviamente, a Tolkien.
Mas o tempo passava, o trem andava e o barco navegava. Era o momento de escolher o que queria ser da vida. Foi difícil, eu tinha apenas 17 anos e pensava em ser muitas coisas. Fiz até um teste vocacional, que apontou “múltiplas tendências”, assim o homem do teste me recomendou que fizesse jornalismo, um curso que se faz de tudo um pouco. Tentei, passei, comecei as aulas, mas não me contentei. Algo fervia dentro de mim que não estava sendo saciado pela comunicação, embora eu estivesse gostando de cursar jornalismo. Tomei uma decisão e tentei História na Federal. Passei, algo em mim se acalmou e outra parte de mim ferveu ainda mais. Começaram as aulas de história medieval, vida monástica, oriente antigo e pronto, era aquilo que eu queria. Conan, Tolkien e História. As coisas se encaixavam.
Fui morar na Espanha e lá montei um grupo de RPG. Antes disso, claro, não conhecia ninguém. Passando por uma banca de revista, deparei-me com um quadrinho do Conan e não tive dúvida, comprei. Foi minha primeira compra de HQ na Espanha e isso é significativo. Na seqüência, enchi-me de Groos que, entre pulos de risos, acabei descobrindo que o Sérgio Aragonés se inspirou no Conan para criar “O Errante” e que até mesmo pensou em nomeá-lo Groonan.
Voltei para o Brasil, me formei, comecei a trabalhar e, com os meus primeiros salários, tomei uma decisão: vou começar a minha coleção de Conan. Não teve jeito, todos os dias após o trabalho passava nos sebos da cidade em busca de revistas do Conan. Consegui quase tudo do número um ao 150, mas não quis seguir adiante, pois para cima disso já não havia quase nada de Roy Thomas e John Buscema, com as histórias caindo muito em qualidade. Ainda assim comprei diversas até números acima do número 200, mesmo que até as capas fossem horríveis, longe daquelas do Jusko e demais artistas do começo dos tempos. Na seqüência comprei os filmes Conan o Bárbaro e Conan o Destruidor e descobri que mesmo sendo de qualidade discutível eu adorava aqueles filmes, concluindo, por fim, que minha vida tem uma estreita relação com o bárbaro da Ciméria e que diversas decisões tomadas foram influenciadas por aquelas primeiras letrinhas lidas com muita dificuldade quanto tinha tenra idade. Meu irmão mais velho tinha preguiça de ler os quadros com textos das revistas (que o Roy Thomas adorava colocar aos montes), ele lia apenas os diálogos e pedia a mim que lesse os tais quadros. Hoje, quando narro estórias de RPG ou dou aulas, é tudo muito parecido e não sai da minha cabeça criar as minhas próprias estórias. Mas, como diria o velhinho após os filmes do Conan, “isso é uma outra história”.

domingo, 14 de junho de 2009

Temas e conteúdos históricos abordados no filme o Homem da Capa Preta


Temas e conteúdos históricos abordados:

O principal conteúdo histórico que percorre todo o filme são os 19 anos que durou o populismo. Segundo a leitura que o diretor Sérgio Rezende fez, os populistas são apresentados pela figura de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque e estão ao lado do povo. No caso de Tenório, emergiram do próprio povo. Tanto que nos momentos em que o deputado Tenório se afasta do povo, sofre grandes derrotas e fica isolado politicamente. Populistas históricos tradicionais como Getúlio Vargas e mais superficialmente Jânio Quadros, são vistos sutilmente como inimigos.
O período temporal do filme percorre os 19 anos de populismo começados historiograficamente em 1945, com o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra, até a Revolução Gloriosa de 1964, conhecida menos gloriosamente como golpe militar, cujo primeiro presidente foi Humberto de Alencar Castelo Branco.
Passam-se por estes diferentes anos, diferentes presidentes. Dutra (1945-1951), Getúlio Vargas novamente (1951-1954), o presidente João Fernandes Café Filho (1954-1955) que sucedeu Vargas após o suicídio, Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (de favereiro a setembro de 1961), João Goulart (1961-1964) e Castelo Branco (!964-1967). O filme consegue passar a instabilidade do populismo que em menos de 20 anos teve seis presidentes dos quais apenas dois cumpriram todo o mandato, que foram Dutra e JK.
Os idealizadores do filme não deixaram de considerar o fato de estarem produzindo a película em 1986, logo após o fim do regime. Assim, dialogam diretamente com os anseios de um público que quer vilanizar os militares e exaltar os últimos democratas antes do golpe. Em função disto Tenório era um democrata populista que se aliou a João Goulart. Ambos foram perseguidos assim que os militares tomaram o poder. Eles foram os últimos democratas e estavam ao lado das massas. Os inimigos de Tenório, por outro lado, acabaram todos ao lado da ditadura, perseguindo o povo.
Tenório é como o povo: fala o que pensa. Seus inimigos atuam sempre escondidos, confabulando em reuniões em que suas caras não aparecem. Assim é Afonso Arinos, com atitudes indiretas de nomear cargos para perseguir seus opositores. Essa é a linha que Rezende se utiliza para contar os fatos do populismo como pré-cessor do regime militar em diálogo com o momento de pós-ditadura.

Filme O Homem da Capa Preta e sua História


O filme começa em Alagoas, com o nascimento de Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque em 1909. Uma poesia de cordel fica ao fundo, enquanto a mãe de Natalício fecha o corpo de seu filho com dizeres que remetem à cultura e à tradição do sertão nordestino.
Natalício, já crescido, presencia a morte de seu pai, Antônio Tenório. O mesmo assassino de seu pai volta anos depois para matá-lo, mas Natalício se aproveita enquanto a arma do jagunço falha e mata o algoz de seu pai à inchadadas.
O enredo salta para a metade da década de 1940, quando Getúlio abre eleições diretas, e mostra Tenório Cavalcanti como um deputado estadual eleito em Duque de caxias, no Rio de Janeiro. Em seu discurso de posse enfatiza: “o povo agora tem um advogado e um defensor”, empunhando a constituição na mão esquerda e sua metralhadora Lurdinha na mão direita, usando uma capa preta que demonstra ao povo que eles agora têm um denfensor.
Tenório se mostra como um típico político populista, que com uma mão acaricia o povo e com a outra manipula. Escutando os problemas do povo, pouco resolve, geralmente transferindo para outros, inclusive para Deus. Andando entre o povo de Duque de Caxias e perguntado por pessoas que bebiam na rua para que time torcia Tenório, este respondeu: “sou Flamengo de coração, Fluminense por convicção, mas eu torço mesmo é para o Bota-Fogo”.
Alcançando uma popularidade cada vez maior, Tenório Cavalcanti também passa a acumular cada vez mais inimigos, principalmente entre os políticos do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), representado no filme pelo deputado Afonso Arinos, inimigo pessoal de Natalício, que chega à câmara Federal pela UDN (União Democrática Nacional).
E o PTB consegue eleger o prefeito, o governador e o presidente, podendo assim agir contra Tenório em Duque de Caxias. É o que acontece. O delegado Lima Maragato vai para a cidade e passa a perseguir sem clemência os aliados de Tenório. Em um evento em que o delegado manda que Tenório tire o chapéu na sua presença e o deputado não acata, Maragato derruba o chapéu de Natalício, que se abaixa para peg-alo e é fotografado de joelhos diante do delegado, abalando sua carreira política.
A partir de então Tenório não usa mais a capa preta e a cidade entra em estado de guerra civil, com morte de vários lados, inclusive a do delegado Maragato.
Sem uma preocupação em mostrar os anos se passando, o filme passeis pelos governos de Getúlio Vargas, de 1951 a 1954; de Juscelino e de Jânio Quadros quase que imperceptivelmente, não fosse pelas expresões dos atores que eram envelhecidos. A instabilidade política do país é contada pelo discurso de Tenório, que sai da UDN para tentar o governo da Guanabara contra Carlos Lacerda e perde. Após a derrota fica sozinho e sem o apoio de seus antigos e fiéis aliados, um camponês e um jornalista, que discordavam da atuação inflexível de Natalício.
Derrotado nas urnas e sem apoio, o homem da capa preta revê suas atuações políticas e resolve mudar, refazendo as alianças perdidas porém com um novo discurso, que agora se aproximava de João Goulart, portanto visto como de esquerda para a época. O jornal Luta Democrática é a voz destas novas idéias, consumido pelas classes mais populares do Estado.
Mas o golpe militar representa também um duro golpe para o renascimento político de Tenório. Seus aliados foram perseguidos e em breve chegaria a vez dele. O jornalista fugiu pela embaixada da Suíça enquanto o operário resolveu ficar e resistir, provavelmente em guerrilhas.
Tenório também ficou. Estava novamente com a Lurdinha em uma mão e a capa preta sobre o corpo ajudando ao povo contra as injustiças dos poderosos. “não sou facista nem comunista. Sou Tenório Cavalcanti. Sou macho”. O político populista estava acima das ideologias.
Na visão do diretor Sérgio Rezende, Tenório é o herói. Um populista saído do povo e que busca governar para o povo. A constituição em uma mão e a metralhadora em outra estão de acordo com a própria representação da deusa grega da justiça que, de olhos vendados, traz em uma mão uma balança e na outra uma espada.
Natalício não entra em crises pessoais, que ficam representadas no papel de sua esposa, que tem breves surtos de loucuras.
Para Sérgio Rezende, o populismo é odiado pelos poderosos e aliado do povo. Tenório acaba do lado de Jango e seus inimigos são conchavados com o exército que tomou o poder. Desta maneira, o golpe militar é também um golpe no governo popular, democrático. Quando a cada de Natalício é cercada pelo exército, entenda-se como a casa de um representante do povo sendo invadida sem mandato, sem leis.
Na última sequência do filme, os militares entram novamente na casa de Tenório em busca de pessoas perseguidas pelo regime que supostamente estariam escondidas ali, no lar do político. Os soldados são liderados pelo arquirival Afonso Arinos, que se dirige a Natalício de diz que vai destruir seu nome e sobre ele jogar sal e pedras, ou seja, a punição dada a Tiradentes, um herói da liberdade. Essa é a visão que tenta passar Sérgio Rezende nesta sua leitura sobre o populismo, aproximando-a dos dias atuais, já que o filme é de 1986 e dialoga menos com o início do regime que com o seu final.
Todo o filme trabalha cores. No início do filme em que Tenório está sempre de preto, seus inimigos estão sempre de branco. Após deixar de usar a capa preta, Tenório é que passa a usar o branco e seus inimigos usam o preto. As câmeras geralmente utilizam-se de planos médios e closes quando Tenório fala, aproximando em planos-detalhes de sua boca ou expressões do rosto quando este discursa raivosamente. Quando seus opositores estão reunidos, raramente suas caras são mostradas, com planos nas mãos, nas roupas ou mesmo colocando objetos na frente do rosto, destacando a figura de Afonso Arinos.
O filme ganhou os prêmio de melhor filme, melhor atriz (Marieta Severo), melhor ator (José Wilker) e melhor música(D. Tygell) no festival de gramado de 1986.

A festa de Babette e um pouco de análise


Felipe Araújo de Carvalho

Analise do filme “A festa de Babette” segundo a perspectiva da história e da cultura da alimentação.

No jantar de Babette, ao analisar o silêncio dos convidados e após as suas atitudes, ou de como a comida derruba o fundamentalismo religioso, percebe-se que na realidade, houveram alguns momentos de silêncio durante o jantar de Babette. O primeiro deles foi pactuado entre os convidados, que prometeram não falar nada durante todo o banquete promovido pela francesa. O puritanismo religioso os fez prometer que não iriam fazer quaisquer comentários, e quando o jantar começou a ser servido, esse silêncio durou, porém por pouco tempo e não de maneira constante.
Um segundo silêncio pode ser detectado quando os convidados, ainda na mesa, começam a comer. De igual maneira durou pouco e não foi tão constante, sendo interrompido pelos elogios que os convidados faziam uns aos outros em contraste com as antigas desavenças criadas desde a morte do pastor.
Porém, acredito que a questão em si diga respeito mais especificamente ao silêncio que se seguiu após o banquete de Babette. Os convidados olhavam-se ternamente, de maneira carinhosa, como se nada precisasse ser dito. Estavam na sala de star completamente satisfeitos de corpo e alma; fisicamente e espiritualmente viam-se como um só corpo e uma só voz, o que se concretizou com o ato de darem as mãos e cantarem juntos ao redor do fogo assim que saíram da casa das irmãs castas e belas de outrora.
Um silêncio de um grupo que estava alimentado espiritualmente tal como se houvesses encontrado Deus ou estado diante do teto da capela cistina, pintada por Michelangelo. Um silêncio que foi quebrado pelo adeus dos amantes, com palavras amorosas ditas por um duro general e por músicas que uniam uma aldeia. Naquele momento o pastor morto não fazia falta, pois Babette mostrou outras formas de falar com Deus. Foi muito mais que derrubar um fundamentalismo religioso, pode-se dizer até que foi um resgate da religião que estava perdida.
Aliás, não é de hoje que filmes mostram alimentos quebrando corações de gelo. No filme Ratatouille, uma simples comida camponesa faz amolecer o coração de um frio crítico de restaurantes. Em “Morango e chocolate”, um rústico revolucionário cubano (Antonio Bandeiras) chega a tirar a roupa na casa de um homosexual declarado, após comer morangos com chocolate. Aliás, sonhando com chocolates, Willy Wonka, deixa as amarras dentárias de seu pai e vai em busca do seu doce predileto. No filme brasileiro “Estômago”, um cozinheiro torna-se o homem mais poderoso entre os bandidos de uma prisão porquê sabe cozinhar e até o mais perigoso entre os criminosos rende-se à comida do nordestino em Curitiba. Poderíamos ir mais longe, com filmes como “Tomates Verdes Fritos” e outros tantos mais, porém estes assinalados até aqui são alguns exemplos que ilustram como a comida quebra paradigmas.

A partir da frase “um artista nunca é pobre”, podemos analisar a cozinha como arte. Um artista nunca é pobre porque se alimenta espiritualmente e não fisicamente. Sua riqueza vem do que ele produz, do que ele realiza. Um artista não vê os elementos do dia a dia como simples mortais. Um pintor se alimenta de cores; um poeta se alimenta com palavra; um arquiteto se alimenta de espaço; um músico se alimenta de dor (?); um escritor bebe na própria imaginação; um desenhista come lápis e grafite.
O que satisfaz um artista está longe de ser facilmente compreendido. Para se fazer uma visita surpresa a alguém que vive de arte, é importante passar ao menos em uma panificadora antes. Cotidianamente, a geladeira de um artista é vazia, não havendo em seus ateliês muito mais que cigarros, bagunças e sujeiras... talvez uma coca-cola.
No caso de Babette, sua arte é a cozinha. A codorna é servida em um “sarcófago” comestível e para cada alimento há uma bebida, cada poção no seu devido momento. Da mesma forma que um pintor escolhe as cores, Babette escolhe os temperos. Assim como o desenhista tem suas ferramentas, como réguas e canetas, Babette tem suas panelas, fornos, etc. A dor que inspira um músico pode ser o odor que inspira um bom cozinheiro. Se o arquiteto faz milagres aproveitando e embelezando um espaço, o mesmo faz Babette em cada milímetro de um prato, uma taça ou uma mesa. A composição estética do artista da cozinha é como a de um quadro: precisa de beleza, inspiração e transpiração... uma verdadeira composição artística desde o dom, o processo, até finalizar com a conclusão. Pode-se dizer que é uma arte que alimenta no duplo sentido.

É possível fazer uma reflexão sobre o cinema como fonte para a história e a cultura da alimentação.Diversos são os filmes cujo tema é especificamente a alimentação. Com uma mensagem mais óbvia, são, em si, uma fonte para se compreender a cultura da alimentação na história do homem. Falamos um pouco sobre alguns deles ao responder a primeira questão.
Porém, mesmo filmes que não abordem esse tema de maneira mais detida, também acabam por trazer elementos que nos fazem refletir sobre a alimentação na história.
Há um certo filme sobre Luís XV que se inicia com o banquete ofertado, no qual o cozinheiro chefe é Gerard de Pardieu. “Super Size me” fala da alimentação dos norte-americanos nos dias atuais. Até mesmo películas simplórias, que mostram personagens pedindo café em beiras de estradas ou famílias alimentando-se na hora do almoço, servem como fontes de pesquisa para se entender a cultura da alimentação.
É comum vermos em filmes americanos serem servidos ovos com bacon e leite com sucrilhos; nos filmes que se passam na Europa, os cafés são as atrações, com pratos trazendo pouca comida a custo alto. Outra linha do cinema traz a comida preferida de astros, que geralmente escolhem comida fora do cardápio e nem sempre comem o que pedem.
Enfim, pegando-se toda a filmografia de um país e analisando os pequenos detalhes de como os momentos em que aparecem comidas são abordados, poderíamos ter infinitos elementos para conhecermos a própria cultura daquele país.